sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Maior



as pessoas
[ poucas ]
que me conhecem
sabem que não me conhecem
[ como não me conheço ]

porque mais que direito
sou avesso
onde aparente
a costura
à mão e agulha
não tem começo

e embrulha rasgos sem cura
apenas remendos
a própria linha em tropeço



as pessoas
[ pouquíssimas ]
que me conhecem
sabem que não me reconhecem
[ como não me reconheço ]

porque jamais
assumi compromisso
[ sequer comigo ]
de ser isso ou aquilo
além ou aquém
do umbigo

a moeda
que me foi dada
não paga esse preço



as pessoas
[ raras ]
que me conhecem
sabem que não se conhecem
[ como não me conheço ]

porque viver
é ser e estar
em trânsito
a todo tempo
em avenidas
sem endereço

esse o intento das vidas
movimento
de recomeço



as pessoas
[ raríssimas ]
que me conhecem
sabem que não as conheço
[ e é verdade ]

quanto te olho
não encontro
alguém
em moldes
e traços
de gesso

só vejo espaço
e possibilidade
[ e agradeço ]


domingo, 10 de setembro de 2017

Sentir falta nem sempre é saudade


pela loucura de me descobrir
em seus olhos é que sinto falta
do seu rosto

não era o que me dizia

era o que eu lia
na pauta da sua íris
que dava gosto

eu fora de mim
e diante de mim
estando em outro

não era o que me fazia

era o que eu via
no muro da sua pupila
pichado em ouro

                x

pela loucura de me esconder
em seus olhos é que sinto falta
do seu rosto

não era o que me calava

era o que eu amava
no baú da sua íris
que dava gosto

eu dentro de mim
e diante de mim
estando em outro

não era o que me negava

era o que eu guardava
no fundo da sua pupila
como tesouro


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Epitáfio


impossível viver sem algum medo.
impossível amar sem o maior dos medos.



Escrito a partir de um texto do poeta Rogério Tadeu.
Fotografia-presente.

sábado, 5 de agosto de 2017

Na estação


toda a vida
andei de trem,
porque via graça
no apito,
na fumaça,
no som do atrito das rodas
sobre os trilhos entre as britas,
no vai-e-vem lateral dos vagões
por sobre a linha vertical e férrea.

as tardes eram tão bonitas,
que me escondi, certa vez,
e pernoitei no trem
: parado.

sem apito,
sem fumaça,
sem o som do atrito das rodas
sobre os trilhos entre as britas,
sem o vai-e-vem lateral dos vagões
por sobre a linha vertical e férrea,
passei a noite em claro.

era só o frio do metal,
era só o calafrio no escuro.
vagão duro sem janelas,
pó de caixas, fuligem,
saliva amarga.

ainda quero andar de trem,
só que não mais em trem de carga.



Fotografia minha.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Distração


a borboleta pousou
em minha pálpebra
para voar com meus
olhos. sou mais livre
que ela. eu sou o ar.
e o vácuo. sei disso.
e ela ainda não. ela
ainda não vê que o
colorido das asas é
só sedução. ela voa
mais perto do chão
que do céu. ela nem
sabe que viveu num
casulo. ela vem e só
me cobre a pálpebra
por me pensar vivo,
sem me sentir nulo.
vai, borboleta, siga
seu curso. mas leve
consigo o vento dos
meus cílios sem raiz.



Para Diego Zanotti.
Fotografia: Diego Zanotti.

domingo, 19 de março de 2017

Auditiva


o silêncio fala.
tenho ouvido
cochichos
de longe
como se
da sala.
palavras
mudas
como que
ocultas
nos nichos
da estante.
dizem-me
pouco,
mas já
o bastante.
do corredor
à porta,
eu danço
ao passo
da escuta.
e desço
a escada
à espera
da próxima
frase
diminuta.


quinta-feira, 16 de março de 2017

Dunas


eu já fui tantas
que até duvido da minha
individualidade.

se plurais
as alegrias e as dores,
incontáveis
as angústias e os amores,
e imprevisíveis
os medos e as saudades,
como posso caber
na forma provisória e estreita
do meu nome?

eu sou feita de muitas:
das que ainda sou,
das que descartei por inutilidade,
das que perdi por distração ou preguiça,
das que sonhei conhecer algum dia.

areia aos ventos,
eu sou todas as dunas possíveis
e, em dias de tempestade, movediça.

a real ameaça
às minhas crenças,
o desvio ou atalho
em meu próprio caminho.

há fantasmas que me habitam
e falam não sei de onde.
toda vez que você me chama,
um coro é que lhe responde.



Poema de abertura da primeira edição do Projeto "O som da poesia",
desenvolvido com Thiago Miranda.

domingo, 5 de março de 2017

Libidinoso


já nem preciso
fechar os olhos:

na sobra de sol
que pula
a janela do quarto

na dobra do lençol
que ondula
o relevo do ventre

na manobra do vento
que burla
o véu das cortinas

vejo você
à claridade do dia
e falo

entre...

lábios que amanhecem
pernas que obedecem
a cama está vazia



Tela: Floating Nude, de Gustav Klimt.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Vida


Clique antes de iniciar a leitura.




que silêncio é esse

que desassossega?

que som é esse

que cega?

que voz é essa

que some?

que luz é essa

no breu?

que sol é esse

só meu?

que chama é essa

que consome?

que sopro é esse

que desce?

que brisa é essa

que aquece?

que ar é esse

que é fome?

que chão é esse

que acolhe?

que solo é esse

que recolhe?

que casa é essa

a do homem?

que noite é essa

vermelha?

que sono é esse

centelha?

que sonho é esse

sem nome?


domingo, 19 de fevereiro de 2017

Assim seja


ouço o sino da igreja.
é domingo, começa a missa.
o sol já lambe o lençol e atiça rubores.
a cama por fazer, a alma de joelhos, confesso-me.
errei todas as vezes, errei - digo ao espelho.
e ele se põe a exibir o passado em plano-sequência, todo um roteiro
                                                                                           [de improviso.
errei o tempo, as falas, os gestos, o choro, o riso.
não sou atriz, não sei ser personagem de mim mesma.
errei todas as vezes porque quis, à ignorância do que queria.
coisa mais difícil essa de se conhecer assim, dentro e fora.
eu, cotovia ao céu na inexperiência das asas.
a água no rosto me benze.
perdão - peço a mim e a você.
poema é prece a que se reza sem pressa.
desnecessário crer.
a palavra entra pela fissura, a palavra fura, a palavra enche de luz
                                                                                       [quartzos opacos.
a manhã segue em procissão.
ao som de um canto pagão, bebo da taça de vinho tinto deixada à mesa.
e comungo da beleza que a janela revela: a dança das nuvens
                                                                                  [às escusas do vento.



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Sonambulismo


despertei
num sonho
com a dúvida
de quanta vida
disponho? e me
pus a contar o ar

molécula a molécula

e faltava. não havia
ar para tanto fogo.
o desejo não era
pouco, fiquei a
relembrar as
ardências

febrícula por febrícula

e desmaiei.
e acordei num
outro sonho com
a dúvida de quanta
vida disponho? e me 
pus a contar os mares

gotícula por gotícula

sem pressa. era ali que
o desejo habitava. era
essa a sua natureza
: o desejo é coisa
das águas. vem
da profundeza

náugrafo a náufrago




Imagem daqui.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Paralelo


    gosto                       gosto
    quando                    quando
    conversa                  respondo
    comigo                     você
    pelo                         pela
    vento                       brisa
    cada                        cada
    palavra                    palavra
    sua                          minha
    vem                         vai
    sopro                       livre
    movimento              desliza
    todo                        todo
    suspiro                    suspiro
    rajada                     hálito
    toda                        toda
    pausa                      pausa
    calor                       amor



Imagem daqui.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Mulher


eu sou toda purpurina
sob a pele de cetim
poeira brilhante e fina
um cromossomo me fez assim
                         um cromossomo me fez assim


menina, era boneca
com vestido de jardim
orvalho que nunca seca
o espelho viu e contou pra mim
                         o espelho viu e contou pra mim


pareço falar demais
mas toda história é sem-fim
palavras pelos varais
o homem diz que falo em latim
                         o homem diz que falo em latim


tenho garras de leoa
e colo de querubim
sou mãe de qualquer pessoa
o amor se inventa no camarim
                         o amor se inventa no camarim


a rotina de armadilhas
ameaças de festim
com a força das virilhas
a mulher voa do trampolim
                         a mulher voa do trampolim




Tela de Frida Kahlo.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Corrente


há um fio
invisível
que une
memórias
de ponta
a ponta

toda conta,
lembrança

a cada miçança,
nós



um fio
comprido
que liga
estórias
ponto
a ponto

todo conto,
segredo

a cada enredo,
nós



arrebentou-se o fio
cederam-se as margens
colhi os seixos rolados
emergiu você



Após leituras de Psicologia, em dia de Iemanjá.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Eu me importo


quem você pensa que é
pra fazer o que bem quiser
consigo?

sim
eu não sou seu amigo
nem sei o seu nome

mas há algo que nos liga
: pelo umbigo



o ar que você respira
também é meu

o sol
a lua
as estrelas

você está
sob o mesmo céu
que eu

que distância
pode existir entre nós
se você escuta
a minha voz?



somos feitos do mesmo barro
da mesma proporção
de água e terra

e você insiste
em me chamar
de outro
em me julgar
estranho
em me declarar
guerra



não
você não sabe
que eu sou você
em algum momento

na dor
no amor
na alegria

somos sempre
um só
ao relento



a vida
é labirinto
de espelhos

é que muitos andam
de olho vendado

você acha que segue
um caminho distinto
mas a Terra nos gira
pro mesmo lado



Para Felipe Saleme, em 2012.

domingo, 29 de janeiro de 2017

O lago


[quando o cisne
criado entre patos
encontra o lago

eureca

se vê cisne
deixa os patos
segue os iguais]

floreio:

entre cisnes
em pose no lago
o pato feio



Para Regina Castelo, após Lacan.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Habite-me


                             obra,

                         preciso de

                       guarda-corpo

                          and'aime

                         e roda-pés



sábado, 14 de janeiro de 2017

Cristalino


ainda procuro você
em meus olhos

vasculho à lupa
o vão da retina

e ali encontro
só luz e névoa

você me vendo
e vindo neblina

as mãos côncavas
o coração convexo
a vontade convicta
o cérebro perplexo

até que dos olhos
ele inverte a poesia

e o vislumbre da volúpia
se esvazia



Fotografia: eu, por Felipe Saleme.